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VIOLÊNCIA NO TRÂNSITO - O ESTADO DE S. PAULO – 19/08/07 - METROPOLE
Em uma semana, 591 acidentes com motos
  • Ocorrência 675/07, Rua do Oratório, Mooca, zona leste
  • Ocorrência 696/07, Rua Inácio Luiz da Costa, Pirituba, zona norte
  • Ocorrência 735/07, Rua Glauco Velazques, Casa Verde Alta, zona norte
  • Ocorrência 790/07, sem endereço, Hospital do Mandaqui

Cada número acima representa um motoqueiro morto no trânsito de São Paulo, entre 7 e 14 agosto. São dados que, empilhados em cima de uma mesa qualquer na Secretaria Municipal de Transportes, vão resultar em relatórios de fim do ano, compêndios com estatísticas frias e didáticas. Mas que escondem histórias de acidentes trágicos, vidas interrompidas bruscamente, sonhos desfeitos. Para as famílias, eles não são números. Eles são Fernanda Cristina Pignataro, de 19 anos; Rodrigo Pereira, de 22 anos; Rodrigo Hernandes, de 28 anos; e Rogério Seabra de Jesus, de 28 anos - vítimas ignoradas de uma guerra de todos os dias nas ruas da cidade.

São Paulo mata em média um motoboy por dia e fere gravemente outros 25, segundo os relatórios de fim de ano da Prefeitura. Depois dos pedestres, são as maiores vítimas do trânsito. Em 2003, foram 126 motoqueiros mortos. Em 2004, 210. No ano passado, esse índice saltou para 380. O número de internações é igualmente assustador: se em 2003 foram 2.590, em 2006 os hospitais receberam 3.692 motoboys. Neste ano, até maio, são mais 1.784. Um prejuízo de R$ 4 milhões para os cofres municipais por ano.

"A cada motoqueiro morto, temos três que ficam seqüelados, com paraplegia ou tetraplegia", diz o cirurgião Renato Poggetti, diretor do Serviço de Emergência do Hospital das Clínicas (HC). "Chegamos num caso de saúde pública." Pelas mesas cirúrgicas do HC, espécie de tradução das estatísticas do trânsito, passam cerca de 50 motoqueiros por semana. "Vemos sempre traumatismo craniano, traumas na pélvis, rompimento dos órgãos", diz Poggetti. "Se não morre, fica inválido, não consegue mais trabalhar."

O Estado acompanhou durante os dias 7 e 14 agosto os acidentes graves envolvendo motoqueiros em São Paulo. As cerca de 100 equipes do serviço de resgate do Corpo de Bombeiros atenderam 591 ocorrências - pelo menos outros 30 casos com menos gravidade foram socorridos pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e por policiais militares. Três pessoas morreram na hora - Fernanda Cristina Pignataro, Rodrigo Pereira e Rodrigo Hernandes. O motoboy Rogério Seabra de Jesus morreu momentos após chegar ao Hospital do Mandaqui.

A Prefeitura pára de contar por aqui, mas ainda há uma pessoa internada em estado grave, com risco de morte, e outras duas que podem ficar com lesão medular pelo resto da vida. "O perfil das vítimas é sempre o mesmo", diz Júlia Greve, médica do HC. "É uma geração inteira que desaparece por causa da violência no trânsito."

Fernanda sonhava em jogar futebol nos EUA
Ela e mais 3 motociclistas morreram em acidentes entre os dias 7 e 14

Fernanda Cristina Pignataro sonhava tanto em virar jogadora profissional de futebol que já planejava mudar para os EUA e tentar a sorte nas "peneiras" (testes) dos times universitários de lá. Era uma habilidosa ala-esquerda. Rodrigo dos Santos Pereira queria ser cantor. Depois de aprender sozinho a tocar violão, passava as noites enfurnado no seu quarto imitando Bono, o vocalista do U2. Já Rogério Seabra de Jesus e Rodrigo Hernandes, mais do que pensar no futuro, queriam mesmo era chegar em casa logo e cuidar das suas famílias.

Quatro acidentes, quatro histórias interrompidas pelo trânsito de São Paulo. Entre os motociclistas vítimas de acidentes entre os dias 7 e 14 ainda estão Fábio, internado no Hospital das Clínicas (HC), que corre o risco de ficar paraplégico; Gabriel, internado no Hospital do Mandaqui, que pode ficar tetraplégico; e André, em estado grave no HC. A pedido das famílias, o sobrenome deles não foi divulgado.

"Vivemos num país sem cultura, violento ao extremo", diz João Atílio Pignataro, pai de Fernanda. "Você abre o jornal e só vê coisas trágicas: o porteiro que matou a arquiteta, o ônibus que atropelou os pedestres, o bombeiro que queria seqüestrar o empresário... Acho que o trânsito é só mais um lado selvagem da nossa sociedade, em que todos estão à mercê da raiva e da impaciência do outro."

No sábado, dia 4, Fernanda completou 19 anos. Estava mais do que feliz - tinha acabado de ajudar o time de futebol feminino das Faculdades Integradas de Santo André (Fefisa) a ficar em segundo lugar no Campeonato Brasileiro Amador e estava combinando com uma amiga sua viagem para os EUA.

"Futebol era a vida dela", lembra o técnico da Fefisa, Cláudio Mastrocola. Se a carreira de ala-esquerda não desse certo, a de comerciante, pelo menos, já estava encaminhada. Fernanda trabalhava em uma loja de roupas no Bom Retiro, no centro, a 20 minutos da sua casa, para onde ia de moto. Na terça-feira, três dias depois da festa de aniversário, ela tentava chegar ao trabalho por volta das 7h45, quando um carro a fechou. Ela tentou desviar para a esquerda, mas seu capacete enganchou num caminhão que vinha em sentido contrário.

"Não é só o jovem que morre no trânsito. A família também fica destruída", diz Patrícia Pereira, irmã de Rodrigo Pereira, morto também na terça-feira. O jovem de 22 anos trabalhava com o pai em uma farmácia em Pirituba, na zona norte, onde fazia entrega de medicamentos com a sua moto. Nas horas vagas, tentava melhorar no violão e aprender novas músicas do U2. No fim da tarde do dia 7, ia entregar uma encomenda quando um carro mudou de faixa bruscamente. "O motorista fugiu sem prestar socorro", diz Patrícia. "Mas não vou ficar com raiva. Vou só lembrar com alegria do meu irmão. Ele era querido por todos, no velório foram mais de 500 pessoas. Vai ser impossível esquecê-lo."



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